terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A saga amazônica que fez Roosevelt virar nome de rio

Roosevelt


A épica expedição de Theodore Roosevelt e Cândido Rondon pelo interior da Amazônia (1913-1914), com o objetivo de explorar e colocar no mapa um rio até então desconhecido, está completando 100 anos.

O militar brasileiro, que fora incumbido de estender a rede telegráfica pelos rincões do país, havia chegado às margens desse rio, em 1909, mas ele e sua equipe não conseguiram descobrir onde o rio desaguava e, por isso, o batizaram de Rio da Dúvida. Intrigado, Rondon prometeu a si enfrentar, na primeira oportunidade, o desafio de voltar à região e explorar o tal rio anônimo de ponta a ponta. Anotou a intenção em seu caderninho com um reticente ponto de interrogação.

A oportunidade se apresentou quando Rondon recebeu a missão oficial de acompanhar Roosevelt em uma aventura amazônica. O coronel americano estava desolado e deprimido por ter perdido as eleições que o reconduziriam ao terceiro mandato como presidente dos Estados Unidos.

Os amigos mais próximos, preocupados com a saúde e o estado de espírito de Roosevelt, sugeriram uma expedição à Amazônia como linimento para a dor que o afligia, sugestão logo aceita por um homem afeito a aventuras arriscadas. Acostumados a caçar na África e a colecionar troféus, ele e seus amigos subestimaram o risco amazônico. O próprio Roosevelt registraria mais tarde, em 1914, sua aventura no livro Through the brazilian wilderness.

A saga da intrépida dupla e dos que compunham a expedição também foi relatada com muita competência por Candice Millard no livro O Rio da Dúvida, que narra os percalços enfrentados pela expedição que por pouco não se transformou numa verdadeira tragédia. A natureza hostil e os índios ferozes nunca antes contatados eram constantes ameaças. Além disso, a inadequação dos equipamentos náuticos para um rio de fortes corredeiras e quedas d'água contribuiu para que os problemas não fossem suficientemente previstos e dimensionados no planejamento elaborado pelos assessores de Roosevelt.

O mais interessante é que o livro não se limita à descrição dos episódios perigosos e emocionantes da expedição ao longo dos 752km do rio. Há uma especial atenção para a análise das personalidades gigantescas de Rondon e Roosevelt, confrontados e tensionados entre si no enfrentamento das intempéries e na solução dos conflitos humanos que iam se insinuando dia a dia no meio do grupo expedicionário, composto por pessoas de origens e inserções sociais diversas, desde amigos, o próprio filho de Roosevelt, até índios e caboclos recrutados para as tarefas mais duras.

Dois coronéis teimosos e valentes, lado a lado, arriscando morrerem perdidos no meio da implacável floresta, prováveis vítimas de malária, de um acidente ou de uma flecha fatal. Roosevelt, acometido, num dado momento, de infecção e febre alta e tendo que ser carregado de padiola, chegou a pedir que o deixassem para trás, para morrer sozinho e, assim, não dificultar a evolução da marcha no meio da floresta.

Essa decisão, impregnada de coragem e altruísmo, tomada por quem outrora havia desfrutado de tanto poder e prestígio, foi veementemente rejeitada por Rondon, nosso herói brasileiro cujo nome seria indicado por Albert Einstein para o Prêmio Nobel da Paz de 1925, por suas várias corajosas aventuras. A decisão de Rondon não se devia apenas à sua condição de chefe supremo da expedição, cioso da sua responsabilidade, mas, sobretudo, à admiração e respeito que nutria por Ted Roosevelt, sentimentos que se tornaram recíprocos e públicos posteriormente pelo ex-presidente americano.

Por tudo isso, e muito mais, a efeméride merece ser lembrada. Mais que isso, deveria ganhar um filme digno de Werner Herzog em seu magnífico Fitzcarraldo (1982). A diferença é que a saga cura ressaca pós-eleitoral protagonizada por Roosevelt e Rondon deu certo. O marechal acabou descobrindo que o misterioso rio desagua no Aripuanã, afluente da margem direita do Rio Madeira. A dúvida acabou e o misterioso rio ganhou o nome de Roosevelt.

Também diferente da maravilhosa história de Herzog, esta, além de bem real, não faz apologia à dominação, mas a uma bonita parceria entre dois grandes homens nas suas circunstâncias históricas e limitações humanas.

O Rio Roosevelt nasce na Chapada dos Parecis, no Município de Vilhena, em Rondônia (paralelo 13°19'), passa por Mato Grosso e alcança o Rio Aripuanã, no estado do Amazonas.

Um comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...